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João Nasi Pereira doa à Universidade de Évora décadas de trabalho em arquitetura

O arquiteto e antigo docente do Departamento de Arquitetura da Universidade de Évora disponibiliza à instituição um conjunto de desenhos e projetos que documentam várias décadas de atividade profissional, permitindo preservar a memória da arquitetura eborense e dar aos estudantes a oportunidade de conhecer a evolução das técnicas de representação arquitetónica.

João Nasi Pereira, professor aposentado do Departamento de Arquitetura da Universidade de Évora (UÉvora), doou à Universidade a versão digitalizada do seu acervo profissional, que reúne desenhos, projetos e outros documentos produzidos ao longo de várias décadas de atividade enquanto arquiteto e professor.

A doação, que ocorreu a 21 de outubro, na Biblioteca do Colégio dos Leões, realizada no âmbito da iniciativa “Problemas, desafios e soluções para o arquivo e salvaguarda dos patrimónios e fundos artísticos”, pretende contribuir para a preservação da memória da arquitetura e da transformação das práticas profissionais, colocando este património à disposição da comunidade académica, em particular dos estudantes.

Formalizada através de um protocolo, a entrega do acervo foi simbolicamente entregue através de uma unidade de armazenamento USB a Antonio Sáez Delgado, Vice-Reitor para a Cultura e Sociedade, que deixou um “agradecimento muito especial ao Professor João Nasi Pereira” em nome da Universidade pelo generoso gesto.

Receber um legado e transformá-lo em arquivo vivo

Na ocasião, o Vice-Reitor para a Cultura e Sociedade destacou o significado histórico e cultural da doação, sublinhando que esta representa muito mais do que a entrega de um conjunto de documentos. “O professor João está aqui a entregar uma parte da sua memória, e isso é fundamental e uma grande responsabilidade para nós”, afirmou.

Para Antonio Sáez Delgado, cabe agora à Universidade e à Biblioteca assegurar a preservação e continuidade deste legado. “Há quem olhe para um legado como um fogo que se pode extinguir e há quem olhe para um legado como um fogo que é preciso manter. E eu acho que é nossa responsabilidade manter esse fogo”, afirmou.

“Um legado, um espólio, são corpos mortos, mas o arquivo é um corpo vivo”, observou, explicando que um arquivo ganha uma nova dimensão quando começa a ser trabalhado, estudado e disponibilizado à comunidade científica.

Neste sentido, considerou que o desafio da Universidade será transformar o conjunto documental agora recebido num verdadeiro arquivo, capaz de continuar a produzir conhecimento muito para além do momento da doação. “O professor João está a entregar aqui um legado, e nós temos de transformar aquilo num arquivo”, salientou, manifestando o desejo de que este acervo possa ter um percurso semelhante ao de outros arquivos de referência.

Antonio Sáez Delgado aproveitou também a ocasião para agradecer o trabalho de organização da iniciativa, em particular ao diretor da Biblioteca e aos profissionais das bibliotecas da Universidade de Évora, realçando a atualidade e relevância do tema dos arquivos nas áreas das ciências sociais, das artes e das humanidades.

Por fim, o Vice-Reitor deu nota de um projeto previsto no programa de candidatura do Reitor António Candeias para o atual mandato, que contempla a criação de um novo Espaço dedicado à Cultura, a ser construído junto ao Colégio do Espírito Santo, na atual área do campo de futebol. O futuro edifício deverá integrar espaços de biblioteca, salas de exposição e áreas especificamente destinadas à conservação de arquivos e outros bens de natureza cultural.

A este propósito, salientou a importância de garantir condições adequadas à preservação dos acervos, que exigem “um tratamento muitíssimo especializado”, salientando a intenção da Universidade de criar condições para acolher, conservar e valorizar este tipo de património.

Oportunidade de aprendizagem

O acervo agora doado reúne materiais que testemunham uma época em que o exercício da arquitetura recorria a métodos de trabalho muito diferentes dos atuais, marcados pela crescente utilização de ferramentas digitais. Para João Nasi Pereira, a sua disponibilização à Universidade representa uma oportunidade de aprendizagem, permitindo aos estudantes conhecer diretamente os processos e as técnicas que antecederam os atuais meios de desenho e representação.

“Achei que podia ter interesse, sobretudo porque os alunos podem familiarizar-se com as técnicas daquele tempo e perceber como é que as coisas evoluíram até chegarem até eles, até ao desenho digital e às representações”, explicou o arquiteto.

A doação contempla, nesta fase, a digitalização dos desenhos que integravam o seu arquivo físico, trabalho realizado com a colaboração de antigos colaboradores. O objetivo é que os materiais possam ficar acessíveis aos estudantes para consulta em formato digital. O processo de organização do acervo já está a ser desenvolvido pelos Serviços de Biblioteca e Informação Documental (SBID) da Universidade de Évora.

Um percurso ligado à arquitetura e à cidade de Évora

Iniciada em 1976, a atividade profissional de João Nasi Pereira ficou profundamente ligada à cidade de Évora. O seu percurso começou na Câmara Municipal, onde foi o único arquiteto da instituição durante o período inicial da sua atividade. Em 1981, deixou as funções que aí desempenhava, depois de uma experiência que considera particularmente marcante.

Durante esse período, acompanhou também o primeiro ano do Projeto da Malagueira, por incumbência do então presidente da Câmara Municipal de Évora, Abílio Fernandes, numa fase inicial de um dos projetos urbanísticos mais relevantes da cidade.

A sua intervenção profissional estendeu-se igualmente à vida cívica e à dinâmica urbana de Évora, dimensões que considera importante preservar através do acervo agora disponibilizado.

Ao longo da carreira, manteve ainda um atelier de arquitetura na cidade, por onde passaram vários estudantes e jovens arquitetos que encontraram nesse espaço uma oportunidade de complementar a formação académica com experiência profissional. Muitos acabaram por iniciar aí o seu percurso antes de prosseguirem a carreira noutros ateliers.

Por isso, considera que a preservação do arquivo permite também guardar uma parte do trabalho desenvolvido em colaboração com esses profissionais: “Esta preservação do acervo preserva também parte daquilo que eles ajudaram a fazer”, salientou.

O ensino como espaço de partilha e aprendizagem

A par da atividade como arquiteto, João Nasi Pereira desenvolveu um percurso académico que passou pela Universidade de Coimbra e pela Universidade de Évora, onde acompanhou diferentes gerações de estudantes de Arquitetura.

Recordando a experiência docente, assume que foi uma das dimensões mais gratificantes da sua vida profissional e confessa sentir saudades de ensinar. “Gostei muito de ser professor, e tenho muita saudade de ser professor”, afirmou visivelmente emocionado, destacando a dimensão de aprendizagem recíproca que caracteriza a relação entre docentes e estudantes. “É um daqueles vícios que nos dá a possibilidade não só de passar a nossa experiência, mas também, e os alunos não têm muita consciência disso, mas nós também aprendemos imenso com eles”, acrescentou.

A inteligência artificial como novo desafio da arquitetura

Questionado sobre a evolução da arquitetura em Portugal ao longo dos últimos 50 anos, João Nasi Pereira considera que a profissão atravessa atualmente uma fase de consolidação, depois de um período em que a arquitetura alcançou particular reconhecimento público e cultural.

Na sua perspetiva, o grande desafio que se coloca atualmente à profissão está relacionado com a inteligência artificial e as profundas transformações que esta poderá introduzir na prática arquitetónica. “O grande desafio é a articulação com a inteligência artificial. Eu acho que muita coisa se vai alterar, e nós não sabemos como, nem porquê, nem como é que isto vai acabar. Temos que esperar”, concluiu.

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