
Coordenado por Teresa Ferreira, investigadora do Laboratório HERCULES – UÉ, o projeto “Santos Corpos | Um atlas dos corpi santi em Portugal” envolve investigadores de várias instituições nacionais, incluindo a Universidade Nova de Lisboa, a Universidade Católica Portuguesa, e da Direção Geral do Património Cultural através do Laboratório José de Figueiredo.
O projeto visa estudar os corpos-relicário (simulacra) dos mártires das catacumbas, que são artefactos religiosos de grande importância, notáveis pelo seu contexto histórico e religioso, bem como pelos materiais diversos e pelas complexas técnicas de produção envolvidas na sua criação.
O projeto Santos Corpos tem como objetivo revelar o contexto histórico, artístico e religioso dos corpi santi e dos seus simulacros em Portugal. Os seus objetivos incluem o reconhecimento, salvaguarda e valorização destes artefactos patrimoniais frequentemente negligenciados, bem como a sensibilização do público em geral, da comunidade académica e dos seus detentores.
Este trabalho é realizado por uma equipa multidisciplinar que articula contributos da história, da história da arte, da ética do património, da conservação e restauro, da química, mas também da arquitetura digital e do design.
Segundo Teresa Ferreira, da coordenação do projeto, o principal valor da investigação reside precisamente na sua natureza interdisciplinar. “O que eu mais gostei neste projeto é precisamente a interdisciplinaridade, a forma como os saberes se cruzam e como se complementam. Juntos chegamos muito mais longe do que se eu estivesse sozinha no laboratório a fazer as análises”,
afirmou.
“O projeto centra-se no estudo dos chamados corpi santi, relicários antropomórficos que contêm ossos humanos provenientes das catacumbas de Roma”, explicou a Professora da UÉ, que revelou que “entre os séculos XVIII e XIX, estas relíquias foram montadas em figuras de aparência humana e enviadas para diferentes regiões do mundo católico, desde a Europa até à América, Austrália e Ilhas Maurícias. Recentemente, estivemos em Roma e encontrámos registo desses envios um pouco para todo o mundo”.
“Tudo o que era expressão do mundo católico recebia estes corpos”, adiantou a investigadora, acrescentando que os pedidos eram frequentemente feitos por figuras de elevada importância política e social, entre as quais a imperatriz Maria Teresa, a rainha D. Maria I e o Marquês de Pombal.
A publicação agora apresentada reflete os diferentes olhares científicos sobre este património singular. Os vários capítulos do livro resultam das contribuições dos membros da equipa e abordam os relicários sob múltiplas perspetivas, desde a sua história e significado religioso até à sua materialidade, conservação e representação digital.
“Este livro traduz o trabalho que a equipa fez ao longo destes três anos – o projeto iniciou em março de 2023 e terminará no final de 2026 -, mas que já vem com conhecimento anterior, porque um dos membros da equipa fez o seu doutoramento nesta área. Portanto, em know-how já vão quase dez anos de trabalho”, destacou Teresa Ferreira.
Além da publicação do livro, a equipa prepara novas iniciativas de divulgação científica e cultural. Em setembro terá lugar um Congresso dedicado ao tema e, entre 2 de julho e 13 de agosto, o Convento dos Cardaes, em Lisboa, acolherá uma exposição dedicada aos corpi santi. A mostra adapta uma exposição anteriormente apresentada na Sé de Évora e será agora contextualizada em
torno de S. Peregrino, considerado o primeiro destes corpos-relicário a chegar ao convento.
A divulgação do projeto junto do grande público tem revelado o desconhecimento generalizado sobre este património. “O feedback é muito positivo. As pessoas ficam surpreendidas porque não fazem ideia da existência destes relicários”, referiu a coordenadora. Segundo a investigadora, mesmo muitas das instituições religiosas que conservam estas peças possuem informações limitadas sobre a sua origem e significado.
Nesse sentido, segundo Teresa Ferreira, o projeto procura ainda contribuir “para a valorização e a disseminação nacional e internacional deste património”, recuperando a memória de um culto muito popular entre os séculos XVIII e XIX, mas atualmente pouco conhecido. “Em suma, procuramos colocar o conhecimento ao serviço da comunidade para esclarecer e dar a conhecer este património”, concluiu a professora da UÉ.















