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“Beatriz, Uma Melodia Interrompida”: da memória de uma filha nasce um alerta contra a violência de género

No seu primeiro livro, a mãe de Beatriz Lebre transforma a dor da perda da filha num testemunho pessoal e num alerta para a violência de género. A obra dá a conhecer a jovem mulher alegre, apaixonada pela música, pela literatura e pelas artes, cuja vida foi tragicamente interrompida.

Beatriz, Uma Melodia Interrompida é o título do primeiro livro de Paula Lebre, já disponível nas livrarias de todo o país. A obra nasce da necessidade de contar a história da filha, vítima de homicídio a 22 de maio de 2020, mas assume também uma dimensão de denúncia social, procurando sensibilizar os leitores para a violência contra as mulheres e para a urgência de combater este flagelo.

Em entrevista à Rádio ELVAS, Paula Lebre faz questão de afastar, desde logo, a ideia de que se considera escritora. “Eu não sou escritora. Escrevi um livro, que nem é nada de criativo, é só um relato de uma vida, de um acontecimento e de um sofrimento”, afirma, descrevendo a obra como um testemunho pessoal sobre a filha e as circunstâncias trágicas que marcaram a sua morte.

Mais do que uma homenagem, expressão com a qual não se identifica, a autora considera que o livro pretende chamar a atenção para uma realidade que continua a exigir respostas da sociedade. “Aqui o que está em causa é uma fragilidade da condição humana que é preciso perceber e conter, que é a violência”, sublinha.

Paula Lebre alerta para a dimensão da violência contra as mulheres e para a necessidade de ir além dos números, procurando dar-lhes um rosto e uma história. Através da experiência de Beatriz, espera que os leitores compreendam melhor a gravidade deste problema. “Pelo menos que com a história, as pessoas, pela afetividade que possam sentir, liguem e sintam mais os números, o significado daqueles números grotescos e atrozes”, explica, lembrando que, “são duas mulheres mortas, por mês”, em média, em Portugal.

A mãe de Beatriz critica também a tendência para responsabilizar as vítimas pela violência de que são alvo, questionando os comportamentos e as escolhas das mulheres como se estes pudessem justificar a agressão. “Nada justifica um assassinato, seja mulher, seja homem”, afirma, defendendo que esta forma de pensar tem de ser desconstruída. Para Paula Lebre, a educação é uma das dimensões fundamentais para uma resposta estrutural e coletiva ao problema.

Apesar da dureza dos acontecimentos que relata, “Beatriz, Uma Melodia Interrompida” não pretende ser um livro sombrio. A autora procurou preservar a personalidade da filha e dar a conhecer os seus interesses, a sua alegria e a paixão pelas artes. “Não é um livro sombrio. Não deixa de ser belo, porque tem lá tudo o quanto ela mais amava, que era arte, cinema, música, poesia, literatura”, revela.

A música ocupa um lugar especial na narrativa, funcionando como uma banda sonora que acompanha a leitura. Paula Lebre explica que escolheu canções que faziam parte da vida familiar e da relação com a filha, integrando-as no texto como forma de criar pausas e tornar a experiência de leitura mais envolvente.

“Eu pretendia que fosse uma perolazinha. Não é nenhum diamante literário, nem nada disso, mas que seja uma pérola bonita e que dê prazer às pessoas e que emocione”, afirma, acrescentando que deseja que o livro contribua para que os leitores não se resignem perante a violência.

Um livro nascido da necessidade de compreender

A escrita surgiu de forma inesperada. Inicialmente, Paula Lebre preparava um testemunho para integrar uma compilação de textos sobre a vida de Beatriz, reunidos por amigos. Foi o músico, realizador e escritor Filipe Melo, amigo da filha, quem a incentivou a transformar esse material numa obra autónoma. “Ele é que me disse: ‘Paula, isto não é um testemunho, isto é um livro que tens de fazer à parte’”, recorda. A sugestão foi decisiva para que avançasse com um projeto no qual, inicialmente, não acreditava.

O processo de escrita foi também acompanhado por uma procura de respostas para a tragédia. Durante o luto, a autora dedicou-se à leitura de filosofia, teologia, psicologia e sociologia, procurando compreender o que tinha acontecido e os fenómenos sociais associados ao feminicídio, ao machismo e ao patriarcado.

O texto foi depois trabalhado em conjunto com a editora (Penguin Livros), num processo de organização e revisão que permitiu estruturar os capítulos e definir os momentos de pausa. Paula Lebre descreve o manuscrito inicial como um trabalho em bruto, que foi sendo aperfeiçoado com a colaboração editorial.

A narrativa é assumidamente pessoal, construída a partir da perspetiva de uma mãe que procura compreender a perda e preservar a memória da filha. Tudo o que é relatado, garante, corresponde à verdade, incluindo as dúvidas e as interrogações que continuam sem resposta.

Preservar a memória de Beatriz

Ao longo da entrevista, Paula Lebre recorda a ligação de Beatriz à música e ao teatro, evocando a imagem da filha sentada ao piano, uma das memórias que permanece viva entre aqueles que a conheceram.

Entre as recordações partilhadas está também a canção “Into My Arms”, de Nick Cave, que Beatriz cantava com amigos do grupo de teatro da universidade e que a mãe também cantava com ela. A descoberta desta coincidência, já depois da morte da filha, foi um dos momentos que Paula Lebre descreve como especialmente marcantes.

São estas memórias que ajudam a manter presente a personalidade de Beatriz e que dão sentido à publicação do livro. “A Beatriz tem o nome num livro para não morrer outra vez”, afirma, estabelecendo um paralelo com a atribuição de nomes de pessoas falecidas a ruas, como forma de perpetuar a sua memória.

A autora reconhece que a perda de um filho é uma ferida para toda a vida e que a morte violenta de Beatriz constitui uma rutura que não pode ser comparada a um acontecimento natural. É precisamente por considerar que esta morte não pode ficar sem significado que decidiu transformar a sua experiência num testemunho público.

“Eu não me conforme com a inutilidade desta morte. Esta morte tem que ter um significado. Por isso também o livro”, explica.

Apresentação na terceira edição do ALERtejo em Elvas

A publicação de Beatriz, Uma Melodia Interrompida coincide com a terceira edição do ALERtejo, encontro literário que decorre em Elvas e que, este ano, tem como tema central a escrita no feminino.

Paula Lebre considera a coincidência particularmente feliz, sobretudo porque o livro passou por várias vicissitudes relacionadas com questões jurídicas antes de chegar às livrarias. A apresentação em Elvas, agendada para sábado, 24 de outubro, representa, por isso, mais um momento significativo no percurso da obra.

A autora admite que não está a planear escrever outros livros e insiste que não se vê como escritora. “Desde a morte da minha filha, não consigo prever nada na minha vida, nem consigo planear nada, e todo o meu comportamento tem sido conforme as circunstâncias”, confessa.

Para já, a expectativa é que Beatriz, Uma Melodia Interrompida chegue aos leitores, emocione e contribua para uma reflexão mais profunda sobre a violência contra as mulheres. Um livro que procura preservar a memória de Beatriz e dar visibilidade a uma realidade que não pode ser ignorada.

Beatriz Lebre, uma vida interrompida pelo femicídio

Beatriz Lebre foi uma das 19 mulheres que morreram vítimas de femicídio, em 2020, em Portugal. Na noite de 22 de maio, um colega do curso de mestrado dirigiu-se à casa de Beatriz e, quando ela lhe abriu a porta, agrediu-a brutalmente com um bastão. Depois, transportou o corpo na bagageira do carro e deitou-o ao rio Tejo.

O alegado autor do crime, que não chegou a ser julgado, suicidou-se cerca de um mês e meio depois na cadeia.

A entrevista completa a Paula Lebre para ouvir no podcast abaixo:

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