
A pouco mais de dois meses do regresso das tão aguardadas Festas do Povo, Campo Maior prepara-se para revisitar a memória daquela que foi a última edição do certame. O documentário “Os Olhos do Meu Amor”, realizado por Rui Silveira, será exibido este sábado, 30 de maio, pelas 21h30, no Centro Cultural da vila, numa sessão que promete emocionar os campomaiorenses e todos os apaixonados por esta tradição ímpar do Alentejo.
Filmado em 2015, aquando da realização da última edição das Festas do Povo, o documentário só viria a ser concluído em 2019. Apesar de já ter sido apresentada em Campo Maior uma versão preliminar, a obra final nunca chegou a ser exibida publicamente em Portugal. Para o realizador, este é o momento certo para o reencontro entre o filme e a comunidade que lhe deu vida. “O filme demorou muito tempo a ser apresentado porque nós ficámos sempre à espera de quando houvesse festas. E este ano é o momento”, explica Rui Silveira.
Mais do que um simples registo documental, “Os Olhos do Meu Amor” mergulha na alma das Festas do Povo, acompanhando durante vários meses o trabalho apaixonado de dezenas de grupos de vizinhos que dão forma às flores de papel que transformam as ruas de Campo Maior num cenário de sonho.
Ao longo da narrativa, o realizador acompanha cerca de dez grupos distintos, revelando os bastidores de uma tradição marcada pelo secretismo e pelo espírito comunitário. Uma perspetiva rara, até para os próprios habitantes da vila. “Mesmo para as pessoas de Campo Maior é uma surpresa, porque estamos habituados a fazer flores para a nossa rua, com os nossos vizinhos, e há o segredo. As pessoas nunca têm bem noção de como é que as outras ruas se organizam, e este filme mostra um pouco disso”, refere.
Com um tom intimista e profundamente humano, o documentário começa na esfera pessoal do realizador — entre memórias familiares, conversas com a avó e os primeiros encontros com os grupos de trabalho — para depois ganhar uma dimensão coletiva e universal. Aos poucos, a narrativa abandona o olhar individual e abre-se à grandiosidade comunitária das festas, culminando na explosão de cor e emoção da noite da enramação, quando Campo Maior se revela ao mundo.
Mas o filme não se limita à beleza das ruas ornamentadas. Rui Silveira quis mostrar também o outro lado da festa: o fim inevitável de uma arte efémera. O documentário acompanha o último dia das celebrações, a cerimónia de encerramento, a destruição das flores e o processo de limpeza das ruas — momentos tantas vezes esquecidos, mas que fazem parte do ciclo completo desta manifestação popular. “Para mim, a criação também é destruição. Eu queria mostrar o ciclo completo desta forma de arte efémera e popular”, sublinha o realizador.
Entre a delicadeza das flores de papel, o orgulho coletivo e a melancolia do fim, “Os Olhos do Meu Amor” apresenta-se como um retrato sensível da identidade de Campo Maior, da força da tradição e da memória afetiva de um povo que transforma arte em comunidade. Uma obra que chega agora à vila, 11 anos depois, para reacender emoções e antecipar o regresso de uma das mais emblemáticas celebrações populares do país.
Filho da terra, Rui Silveira, hoje, para além de realizador, professor universitário no Canadá, regressa a Campo Maior para apresentar o seu filme às gentes da vila. A expectativa é de uma noite de festa, mas também de muita emoção, até porque muitos dos protagonistas do documentário já partiram.
A entrevista completa a Rui Silveira para ouvir no podcast abaixo:














