
Em Vila Fernando, o Estado arrecada mais de 400 mil euros em cortiça enquanto deixa património da antiga colonial modelo ao total abandono
A recente decisão do Ministério da Justiça, através do IGFEJ, de lançar uma hasta pública para a venda de cortiça na Herdade da Colónia, em Vila Fernando, provoca indignação.
Em causa está o contraste gritante entre a eficiência do Estado em “faturar” com os recursos naturais — prevendo-se uma receita de cerca de 400 mil euros com a extração de 17 mil arrobas de cortiça — e o abandono absoluto do complexo edificado da antiga Colónia Correcional, que definha a olhos vistos desde o seu encerramento em 2007 (ver aqui noticia da hasta pública).
O edificado de Vila Fernando não é um conjunto de prédios comum. Com características neogóticas e traço do prestigiado Engenheiro Mendes Guerreiro, o complexo foi, desde 1895, o motor económico e social da região. Foi a maior casa de correção do país, baseada em modelos europeus que promoviam a regeneração através do trabalho agrícola e pecuário.
Durante décadas, foi o maior empregador da zona rural, com residências para diretores e funcionários, hospital, oficinas, teatro e até uma torre do relógio que marcava o ritmo daquela comunidade.
Apesar de estar integrada na lista do programa Revive do Turismo de Portugal (ver aqui), que visa a recuperação de imóveis públicos para fins turísticos, a realidade no terreno é de uma degradação galopante. O Estado reconhece o valor histórico do conjunto, descrevendo-o na base de dados pública como um exemplo único de arquitetura e organização social, mas, na prática, o centro educativo permanece sem qualquer utilização há quase duas décadas.
Trata-se de um “escândalo silencioso”: o património que em 1963 foi totalmente remodelado e que serviu de hospital, escola e posto de GNR, está agora entregue às silvas e ao tempo, servindo apenas para que o Estado retire dividendos da terra (como a cortiça) sem reinvestir na preservação da memória e da estrutura de Vila Fernando.














