
O distrito de Portalegre foi escolhido como laboratório vivo para o desenvolvimento de um sistema inovador de vigilância do risco biológico em ecossistemas aquáticos. O projeto ZOA-NET (Capacitar o Interior em Rede: Academia, Cidadãos e Vigilância de Zoonoses Aquáticas) junta investigadores, escolas e populações locais na monitorização de parasitas aquáticos com impacto na saúde pública e na economia agropecuária.
A iniciativa representa um exemplo de descentralização e cooperação científica territorial, sendo promovida conjuntamente pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa (IHMT NOVA) — através do centro de investigação Global Health and Tropical Medicine (GHTM) — e pela Universidade Politécnica de Portalegre. O projeto dispõe de um financiamento de cerca de 250 mil euros atribuído pelo Programa Promove – O Futuro do Interior, da Fundação ”la Caixa”, em colaboração com o BPI e em parceria com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Abordagem “Uma Só Saúde” e tecnologia não invasiva
Assente no princípio internacional One Health (Uma Só Saúde) — que articula a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental —, o projeto foca a sua intervenção em trematodioses zoonóticas. Entre as infeções sob observação destacam-se a fasciolose, uma patologia parasitária comum em explorações pecuárias que pode infetar humanos e animais, e a dermatite cercariana, associada ao contacto com águas em zonas fluviais recreativas.
Para detetar precocemente estes organismos em albufeiras, rios e charcas agrícolas, a equipa científica vai validar metodologias de baixo custo e de amostragem passiva de DNA ambiental (eDNA). A técnica permite identificar a presença de agentes patogénicos e dos seus vetores (caracóis aquáticos) através de vestígios genéticos dispersos na água, eliminando a necessidade de recolhas biológicas intrusivas e viabilizando uma monitorização contínua e acessível.
Ciência cidadã: a comunidade como rede de deteção precoce
A componente distintiva do ZOA-NET assenta na capacitação ativa da sociedade civil. Professores, estudantes, agricultores e utilizadores de zonas balneares fluviais vão participar em workshops e ações práticas de treino para colaborar na observação de campo e na recolha de dados.
“Este projeto demonstra como a investigação científica de ponta se pode articular com o conhecimento de proximidade das comunidades locais. Ao capacitarmos os cidadãos e as escolas de Portalegre para reconhecerem riscos sanitários nas águas da sua própria região, estamos a criar uma rede descentralizada de vigilância preventiva com potencial para ser replicada em qualquer outro território do país”, explica Isabel Maurício, investigadora do GHTM/IHMT NOVA e coordenadora científica do projeto (na foto).
Um modelo escalável para o território nacional
Com uma duração prevista de três anos, o ZOA-NET foi desenhado para ir além da produção científica académica: os mapas de risco e as ferramentas desenvolvidas destinam-se a munir autarquias, autoridades sanitárias e agentes do setor primário com dados concretos para a tomada de decisão.
A metodologia validada em Portalegre servirá de matriz transferível para outras regiões de Portugal e poderá ser adaptada à monitorização de novos agentes patogénicos ambientais associados às alterações climáticas e à gestão de recursos hídricos.
A equipa do projeto reúne os investigadores Isabel Maurício, Manuela Calado, Sofia Seabra, Pedro Ferreira e Maria Teresa Bispo, por parte do IHMT NOVA, e Jacinto Gomes, Luísa Pereira e Susana Saraiva Dias, em representação da Universidade Politécnica de Portalegre.














