Restauro da Igreja de São Brás envolto em polémica

A Igreja de São Brás, entre Varche e Calçadinha, no concelho de Elvas, está a ser alvo de um conjunto de trabalhos de restauro, depois de terem sido descobertas imagens, de há mais de 300 anos, nas suas paredes.

Ainda assim, esta é uma obra que está envolta em controvérsia, porque há quem não concorde com aquilo que está a ser feito e tenha já apresentado queixa à Direção Regional de Cultura do Alentejo.

O padre Ricardo Lameira, responsável por esta intervenção, juntamente com a Junta de Freguesia de São Brás e São Lourenço, explica, contudo, que a ideia inicial era apenas dar maior conforto aos fiéis que, naquela capela, se juntam, todos os domingos, tendo em conta o seu estado de degradação. “A igreja estava com muitas fragilidades na pintura, algumas fissuras na parede e tudo isso era preciso arranjar”, começa por explicar.

“A certa altura, ao tirar um pouco de cal, para se pintar, descobriu-se uma pintura e decidiu-se parar um pouco na obra para descobrir o que estava por baixo. Foi aí que pedimos a pessoas formadas para tal, para começarem a descascar a parede, e começamos a ver pinturas de há 300, 400 anos, com a estrutura própria da pintura do século XVII”, adianta Ricardo Lameira.

Segundo o padre, o barroco clássico, com “o uso de muito cinzento e salmão, tudo marmoreado”, agora descobertos na Igreja de São Brás, é idêntico ao da Igreja do Senhor Jesus da Piedade, pelo que suspeita que tenha sido replicado no Santuário, dado que esse é do século XVIII.

À medida que a obra ia avançado, mais elementos originais da capela foram sendo descobertos: entre eles, um escrito, por cima da pia baptismal, que dá conta que a igreja foi construída em 1620.

Quanto à denúncia apresentada à Direção Regional da Cultura, o padre suspeita que a mesma tenha surgido depois de terem sido eliminadas as estruturas que sustentavam dois altares que, garante, “não são da época”, nem se enquadravam no espírito da capela. “Eu compreendo que as pessoas estavam habituadas a vê-los lá, mas não eram da época da igreja e, por isso, é que se destruíram. Perante isso, as pessoas acharam por bem apresentar queixa. A novidade, a mudança e a obra custam sempre, mas a obra que se está a fazer é para recuperar”, garante.

Ricardo Lameira confessa ainda compreender que a Direção Regional da Cultura tenha já enviado uma equipa à igreja, uma vez que terá sido informada que estariam a destruir o património. “Mas o que viram foi duas pessoas a restaurar e a redescobrir o que existe do século XVII. Também viram a falha nestas duas estruturas inferiores do altar (…) e agora estou à espera que os técnicos enviem o parecer, mas isso não impede que se continue a fazer a obra”, assegura.

O padre explica ainda que para pagar esta obra, para além do apoio da Junta de Freguesia de São Brás e São Lourenço, o investimento é feito a partir do dinheiro que a própria paróquia detém. “Todos os direitos que o pároco tem são entregues às respetivas paróquias”, revela Ricardo Lameira. “A obra está a ser paga e as contas são sempre muito claras”, acrescenta.

Quanto ao valor total investido, o padre não consegue avançar com números certos, uma vez que, inicialmente, não estava previsto todo o trabalho agora a ser desenvolvido. Contudo, revela que o primeiro projeto estava orçamentado em 1500 euros. “A técnica não nos está a levar o dinheiro que levaria a outra instituição, sendo ela católica, sendo ela de prática religiosa, percebe as dificuldades que a Igreja tem”, explica ainda.

Já Maribel Belchiorinho, a técnica e artista responsável pelo restauro da capela, explica que, inicialmente, foi chamada apenas para realizar alguns retoques, mas que, aos poucos foi descobrindo vários marmoreados originais, da altura da construção da igreja. Perante essas descobertas, recebeu o aval do padre Ricardo Lameira para avançar para uma intervenção maior.

Ao iniciar o seu trabalho, rapidamente Maribel percebeu que havia muito por descobrir, para além de uma imagem figurativa e um marmoreado, que estava “salpicado”. “O século XVII era muito austero, aplicavam muito o negro e o marmoreado tem de estar em mais partes da capela”, comenta.

“Já começamos no altar-mor e vamos andando por fases, passando depois para os nichos laterais e, posteriormente, para zona da pia baptismal”, revela Maribel.

A artista revela que irá demorar mais tempo que aquele que estava inicialmente previsto – três meses, para concluir o trabalho de restauro, sendo que, debaixo do altar, descobriu um túmulo. “Não sei se é de alguma entidade aqui da zona, da época”, comenta.

Maribel explica ainda que o trabalho agora a realizar implica “retirar séculos e séculos de cale” e tinta, que, ao longo dos anos, foram cobrindo as imagens originais e os marmoreados da capela. O azul, o ocre e os brancos foram cobrindo as imagens e as marcas originais da capela, o que para a artista resulta da “ignorância” existente, entre a população, ao nível da cultura.

No caso do teto da capela, Maribel explica que não vai ser possível recuperá-lo por completo, tendo em conta que, com o tempo, foi-lhe sendo aplicado cimento.