Controvérsia em torno dos OGM em aula da nova telescola

Uma matéria dada numa aula de 7º e 8º ano, de Ciências da Natureza, na nova telescola, está a gerar alguma controvérsia, depois do antigo Bastonário da Ordem dos Biólogos e ex-membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Pedro Fevereiro, ter enviado uma carta aos ministros da Educação e da Ciência, a acusar de estarem a ser transmitidas informações falsas aos alunos.

Em causa está uma matéria relacionada com os Organismos Geneticamente Modificados (OGM), que, contrariamente ao que foi dito aos alunos, Pedro Fevereiro garante que não constituem riscos, nem para a saúde humana nem para o ambiente.

“A informação – ou melhor – a doutrinação veiculada é não só errada do ponto de vista científico – está cientificamente provado que os Organismos Geneticamente Modificados não constituem risco, quer para a saúde humana, quer para o ambiente -, como é deturpada, pois os impactes referidos não provêm da exploração dos recursos agropecuários, mas sim de eventuais práticas agrícolas antiquadas”, diz Fevereiro, na carta enviada aos ministros.

A Plataforma Transgénicos Fora vem agora responder a esta carta do biólogo, com uma outra. Jorge Ferreira, em representação desta plataforma, explica que aquilo que foi dito nesta aula do programa “Estudo em Casa”, transmitido na RTP Memória, “foi abordado de forma correta”. “Aquilo que nós depois não gostámos foi da carta aberta pelo biólogo Pedro Fevereiro, que comentou que (…) já estava provado que as OGM não têm qualquer problema ambiental ou de saúde”, adianta Jorge Ferreira.

“Nós achamos que essas provas científicas não estão feitas (…) e alguns estudos científicos independentes mostram que há alguns impactos na saúde dos animais de laboratório testados e a maior parte dos OGM’s foram desenvolvidos para poderem ser tratados com herbicidas”, adianta Jorge Ferreira. Para além disso, adianta, estes alimentos geneticamente alterados, são “responsáveis por alguns tipos de cancro”. ,

A carta da Plataforma Transgénicos Fora, referente à aula do programa “Estudo em casa” sobre os “Impactes da exploração dos recursos agropecuários” foi enviada aos ministros da Educação, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Agricultura e do Ambiente e da Ação Climática.

Pode ler a carta de Pedro Fevereiro, na íntegra:

“Carta aberta

Ao Senhor ministro da Educação, Doutor Tiago Brandão Rodrigues

Ao Senhor ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Professor Manuel Heitor

Exmos Senhores ministros,

Ontem, 13 de maio, foi apresentado no programa “Estudo em casa”, no canal público de televisão dedicado à Tele Escola, na aula 4 de Ciências Naturais dos 7º e 8º anos, um slide com o título “Impactes da exploração dos recursos agropecuários” (vide anexo).

A informação – ou melhor – a doutrinação veiculada é não só errada do ponto de vista científico – está cientificamente provado que os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) não constituem risco, quer para a saúde humana, quer para o ambiente -, como é deturpada, pois os impactes referidos não provêm da exploração dos recursos agropecuários, mas sim de eventuais práticas agrícolas antiquadas.

De facto, a informação transmitida constitui um aviltamento da produção agropecuária e dos produtores portugueses em particular, que se esforçam todos os dias para garantir a sustentabilidade das suas produções e a segurança alimentar. Contrariamente ao que foi dito na referida aula, a agricultura intensiva moderna não utiliza excesso de fertilizantes, pesticidas e herbicidas, tendo exigências semelhantes ao modo de produção integrada. E, também ao invés do que foi proferido, são proibidos os antibióticos e as hormonas de crescimento nas fileiras de produção animal no espaço europeu.

Em vez de comunicar factos corretos e de os explicar com fundamentos científicos, esta forma de doutrinar é vergonhosa para o ensino das ciências em Portugal. Na realidade, os conteúdos das Ciências da Natureza para os 2º e 3º ciclos, mas também, em parte, para o Ensino Secundário, enfermam da perspetiva de que a ciência é uma disciplina para decorar (vulgo “marrar”) e que os alunos devem ser apascentados, sobretudo no que respeita às ciências naturais e do ambiente. Esta realidade é facilmente verificável em vários manuais escolares.

Peço encarecidamente a Vossas Excelências, como cientistas que são, que atendam a esta questão e que atuem no sentido de mudar este paradigma, que envergonha a Educação e a Ciência portuguesas.

Com os melhores cumprimentos,

Pedro Fevereiro

Biólogo

Presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia

1º Bastonário da Ordem dos Biólogos

Ex-membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida

Professor Auxiliar com Agregação”